Era assim que se fazia pesquisa antigamente.Depois de pesquisar exaustivamente nos arquivos, se anotava o código e se pedia à bibiotecária o livro. A parte mais incrível vem agora: a gente lia o livro, fazia anotações e redigia textos originais! Como cada um sofria diferentes percalços no processo por conta de talentos variados para a investigação, os resultados eram os mais diversos

Era assim que se fazia pesquisa antes do Google. Depois de pesquisar exaustivamente nos arquivos, anotava-se o código e pedia-se os documentos (livros, revistas, teses, mapas e etc e tal) à bibliotecária. A parte mais incrível vem agora: a gente lia o material, fazia anotações e redigia textos originais! Como cada um sofria diferentes percalços no processo por conta de talentos variados para a investigação, os resultados eram os mais diversos

Não sei exatamente em que série eu estava, no ano em que a professora de português exigiu como dever de casa uma redação de página inteira de caderno grande para cada aula que tivéssemos com ela. Lembro que eram 5 ou 6 por semana, sendo que havia um dia em que tínhamos duas aulas seguidas. Eu gostava e havia dias em que me achava uma boa escrivinhadora. O problema eram aqueles dias em que nenhuma ideia vinha à cabeça. Abria o jornal, as revistas semanais, revirava minhas memórias, apelava para qualquer evento cotidiano, mas o Rubem Braga e o Carlos Drummond de Andrade, que eu lia avidamente naquela época, simplesmente não baixavam. Um dia escrevi sobre algo realmente relevante: a importância da azeitona sem caroço na empadinha de camarão.
A professora não se incomodava com a relevância, apenas fazia questão de ortografia e gramática corretas. O exercício de concatenar idéias com algum sentido e em pelo menos três parágrafos era o que interessava. Sempre admirei colegas que escreviam contos, fabulavam, narravam histórias incríveis. Eu sempre fui bem academicazinha (sorry, amigos acadêmicos), com microscópicas doses de jornalismo (sorry, amigos jornalistas). Sempre acreditei que para escrever era preciso ler para saber como fazer e estudar para ter sobre o que escrever. Lição aprendida com meus pais.
Foi com esse espírito investigativo e informativo que criei este blog há quatro anos e meio. Só que de um tempo para cá, açodada pelas informações das redes sociais que habito (facebook, twitter, pinterest e instagram), comecei a achar que isto aqui não fazia muito sentido. Sei que adorava virar noite preparando um post sobre red carpets e lia mil e uma fontes para falar sobre alguma novidade do universo das joias. Também sei que as pessoas vinham aqui de manhã porque sabiam que eu teria feito um mega esforço e encontrariam tudo junto e arrumadinho. OK, também sei que vinha um monte gente aqui fazer copy/paste das imagens que eu edito e trato e das palavras que eu escrevo, mas tudo bem. O problema é que agora, quando tenho a ideia para o post, sei que as imagens já estarão no pinterest e no instagram. Sei que muitos links para muitas fontes, mesmo que péssimas e meramente ornamentais, já vão estar circulando por aí. Circulando tanto que nem dá gosto de ler mais um post. De repente comecei a achar que os meus eram mais um post também.

Aí estava saboreando a minha Trip, uma das poucas publicações que ainda me dou ao trabalho de ler porque não traz mais do mesmo, quando achei uma explicação para essa sensação bizarra. Ronaldo Lemos matou a charada em sua coluna deste mês com o texto Síndrome do “eu vi primeiro”, que eu copio aqui para vocês, mas pode ser lido lá na revista também.

 

Síndrome do “eu vi primeiro”

Em tempo de mídias sociais, é difícil discutir qualquer assunto em profundidade. O importante torna-se apenas passar o recibo: “já vi isso, já vi aquilo”. Quando as discussões acontecem, tendem a ser mais uma guerra de memes do que uma conversa.

Não precisa procurar muito. Com as mídias ficando cada vez mais “sociais”, todo mundo vira ao mesmo tempo consumidor e disseminador de informações. Junto com isso cresce também o fenômeno da síndrome do “eu vi primeiro”. Quando alguém compartilha alguma notícia ou levanta uma discussão e outro responde na hora: “Eu já tinha postado sobre isso há duas semanas”. Ou ainda: “Já tinha visto isso há meses”.

Em geral, a manifestação acaba aí. Quem joga a carta do “eu vi primeiro” não está muito interessado em discutir o tema levantado. Quer apenas marcar território, dizendo que chegou primeiro naquele assunto. De quebra, chama implicitamente quem postou sobre o tema de retardatário (retardado?), como se todos os tópicos tivessem de ser discutidos apenas no momento em que são lançados. Fica formada a patrulha permanente contra quem chegou depois: qualquer conversa fica “velha” aos olhos de quem fez “check-in” primeiro no tema. É como se a esfera pública virasse uma espécie de Foursquare, onde disputas para ver quem chegou primeiro a um lugar são frequentes.

A síndrome do “eu vi primeiro” não é nova. Sempre esteve presente, por exemplo, entre grupos sociais que acompanham vanguardas, assuntos de nicho e mesmo no território acadêmico. O que as mídias sociais fizeram foi democratizá-la: existe hoje uma armada crescente de “primeiristas” circulando pela rede.

Isso dá o que pensar. Esse tipo de comportamento expressa a ansiedade da era em que vivemos, em que o tempo comprime-se. Mais do que isso, onde os acontecimentos se multiplicam. Basta 1 minuto para que sucessivas camadas de eventos se passem: um e-mail chega em nossa caixa de mensagens, alguém manda um convite na rede social, um escândalo é anunciado e assim vai. Com tanta coisa, algo que alguém descobriu há dois meses provavelmente continua a ser novidade para milhões de pessoas mesmo anos depois.

Chato pra caralho

Neste mundo de tempo achatado e multiplicado é difícil discutir qualquer coisa em profundidade. O importante torna-se apenas passar recibo: “Já vi isso, já vi aquilo”. Quando as discussões acontecem, tendem a ser mais uma guerra de memes do que uma conversa. Alguém expressa uma ideia forte, que é replicada automaticamente (ou rejeitada da mesma forma) por pessoas que só leram o título do post, sem entender exatamente o que se passa.

É nesse habitat que os “primeiristas” prosperam. Quem quer discutir algo que já passou (o que é já passar? Dois dias? Dois meses?) fica com a falsa impressão de que tudo já foi dito sobre aquele tema e que ele não pertence mais ao domínio do presente. Não me surpreenderia se, quando este artigo for publicado, alguém diga: “Já escrevi sobre isso antes”. Com o perdão do meu francês, se você faz isso, saiba que você é chato pra caralho.

Vivemos em tempos incríveis. Descobri que não fiquei velha de repente. Ufa! Este fantasma vem me afligindo há algum tempo, já que insisto em conviver com gentes e ideias cada vez mais novas e, às vezes, acho que datei. Descobri que é preciso assumir o papel de consumidor e disseminador de informações corajosa e simultaneamente. Descobri que sempre seremos relevantes, se fizermos parte da esquadra dos “segundistas”, ainda mais se lembrarmos da derrota da Armada Invencível espanhola, rs. Descobri que não preciso correr atrás de prejuízos imaginários, regurgitando ideias, mas devo prová-las e saboreá-las até estarem no ponto de serem apresentadas. Descobri que vou seguir por aqui, recobrando o espírito dos primeiros tempos, quando escrevia para refletir sobre o que via e organizar minhas próprias ideias, dando a sorte de ser lida por quem queria ler sobre o que escrevi.

Ponha o livro na cabeça e não sobre a cabeça. Adoro quando esclarecem isso!

Ponha o livro na cabeça e não sobre a cabeça. Adoro quando esclarecem isso!

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