Regina Machado realizou workshop sobre tendências 2014, na sexta passada, em evento realizado pelo IBGM e SEBRAE-SP

Regina Machado realizou workshop sobre tendências 2014, na sexta passada, em evento realizado pelo IBGM e SEBRAE-SP

Já acompanho as palestras de Regina Machado sobre tendências desde 2005, dois anos após ela iniciar sua aventura pelo mundo com a criação do Caderno de Tendências do IBGM (Instituto Brasileiro de Gemas e Metais). Ano após ano, ouvi Regina falar de macro e micro tendências, do que acontece no exterior e no Brasilzão. Antes dos blogs se tornarem fontes e também notícias, antes do termo cool hunter se tornar conhecido de todos, ela se embrenhou pela vida acadêmica e de lá trouxe ferramentas que ajudam a entender os sinais do que ainda está por vir – a saber: um bocado de semiótica, de sociologia, antropologia e história cultural.

Quem me conhece sabe que eu não sou exatamente alguém que bebe em fontes sem questionar, duvidar, investigar e até mesmo negar. Já me vi em discussões acaloradas sobre a ausência de informações sobre a produção autoral no país, para sempre acabar dando o braço a torcer, porque quem financia as pesquisas, os sindicatos e os institutos é a cadeia produtiva de gemas, jóias, relógios e bijuterias, como o próprio IBGM descreve. Vamos combinar ainda que a indústria está pouco se importando com quem produz um pingo de joias por mês e não faz nem cócegas nas estatísticas. Mas se o governo consegue saber o tamanho da economia informal ou pelo menos a ordem de grandeza do que deixa de arrecadar, nós também deveríamos saber alguns números da produção de pequena escala de joias no país e que nem é de todo informal.

Do ponto de vista da indústria criativa, e muito devagarinho, as coisas começam a melhorar. Grupos como o de Limeira (pólo da industria de joias, folheados e bijuterias no interior de São Paulo) começam a se aproximar de designers que reúnam o melhor de nossas matérias primas e potencial produtor com o melhor de nossa capacidade criadora. Até as grandes joalherias – falo de outras além de H. Stern e Amsterdam Sauer – fazem agora um movimento em direção à originalidade que permite com que empresas como Brumani e Viana comecem a ser reconhecidas nas feiras internacionais e em alguns tapetes vermelhos. Claro que a indústria nacional não faz isso por diletantismo e é aí onde reaparecem os aspectos econômicos sempre. Com a chegada da China, no melhor estilo arrasa quarteirão, e já numa situação de maturidade que ultrapassou a simples cópia mal feita, só um exercício de criação de uma joia essencialmente brasileira, que leve junto consigo este brand maravilhoso que temos, é que pode nos tornar participantes fortes no mercado internacional. Daí o tema do caderno de tendências 2014, ainda em etapa de validação: Chiques Trópicos / Charme Brasileiro. Vale até ser criativo na hora de nomear as cores, os materiais, as peças e as coleções. E pensar que temos a fama de ser um dos maiores copiadores de joias do mundo… E pensar que somos uma das maiores fontes de gemas coradas do mundo…

Voltando ao início, de repente, Regina apresentou como uma das três tendências a serem consideradas a palavrinha mágica Atelier. Chorei!

Você passa a vida inteira vendendo um conceito de joias feita à mão, única, personalizada e um dia, finalmente, todo mundo entende a ideia! Lá nas profundezas do tempo, eu trabalhei com comércio de joias autorais, encarei uma bancada e, nos últimos cinco anos, fiz disso minha vida. É gratificante fazer UMA joia para UMA pessoa de carne e osso. Na maior parte das vezes, as pessoas entendem que há uma aura que liga quem produz e quem consome. Tudo isto tem a ver com consumo local, consciente e sustentável. Também tem a ver com uma ideia de distinção, há pessoas que simplesmente não querem ter uma peça igual a dos outros. Outras pessoas querem ter uma peça empapuçada de história, de sua própria história, e recuperam ou refazem joias de família. Curiosamente, uma das frases que sempre chama atenção na fala de Regina é “a joia é o único luxo que não vira lixo”.

Claro que não estou delirando. Atelier é uma tendência a ser perseguida pela indústria que dará uma roupagem de customização, de peça única e de feito à mão às peças. OK. Mas saber que o conceito rompeu barreiras e deu as caras no universo da indústria é muuuito reconfortante. Valeu, Regina!

Para dar um lindo laço de fita nesta história toda, a semana passada ainda reservou boas notícias.

Patricia Centurion, que jpa tinha um dos show rooms mais charmosos da cidade, formulou a estrutura de seu negócio e acaba de criar a Galeria Movimento Coletivo, onde vai comercializar joias de autor de diversos artistas

Patricia Centurion, que já tinha um dos showrooms mais charmosos da cidade, reformulou a estrutura de seu negócio e acaba de criar a Galeria Movimento Coletivo, onde vai comercializar joias de autor de diversos artistas (imagem: Portal Joia Br)

A Central de Designers está de mudança para os Jardins, após cinco anos no Morumbi. Em novo formato e com capacidade de receber muito mais designers de joias, será mais um espaço para a turma dos Ateliers

A Central de Designers está de mudança para os Jardins, após cinco anos no Morumbi. Em novo formato e com capacidade de receber muito mais designers de joias, será mais um espaço para a turma dos Ateliês

 

Ah, quem trabalha em pequena escala e com as mãos, mas ainda não leu O Artífice, de Richard Sennett, está perdendo tempo.

Para ler um texto ótimo de Ricardo Guimarães sobre luxo e consumo é por aqui.

 

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