Broches com opalas e diamantes em lapidação redonda e simples, aproximadamente 1910

Broches com opalas e diamantes em lapidação redonda e simples, aproximadamente 1910

Adoro quando o pessoal pega um negocinho aqui e outro ali e já inventa uma história…

Hoje no Facebook uma amiga postou um link para uma matéria de um jornal inglês que anunciava o leilão das joias da verdadeira história de amor O Rei e Eu. Claro que eu fui correndo entender este negócio. Afinal de contas, além do astral fofoca real, as joias eram bonitas mesmo. Um lindo e delicado conjunto de opalas e diamantes. De cara já vi no catálogo da Sotheby’s que os preços estavam um pouco baixos para um conjunto de joias históricas. Aí você descobre que o jornal estava exagerando um pouco.

Colar e pulseiras com também com opalas e diamantes nas mesmas lapidações e da mesma época

Colar e pulseiras também com opalas e diamantes nas mesmas lapidações. O colar do final do século XIX e as pulseiras de 1910

Se você remotamente assistiu algum dos filmes feitos a partir da história de Anna Leonowens, deve saber que ela se passa no século XIX e não envolve pilotos de corrida e jet setters. Muito pelo contrário, ela envolve uma professora inglesa que morou 5  ou 6 anos no Sião, atual Tailândia, onde lecionou para os oitenta e tantos filhos do rei Mongkut, num esforço de aproximar o reinado dos avanços internacionais do século XIX. Embora alguns aspectos da sociedade siamesa, que ela criticava duramente, tenham sido modificados nos anos seguintes, a história de admiração e amor entre o rei e a governanta, eternizada num musical e em alguns  filmes, está longe de ser verdadeira.

Pulseiras com diamantes em lapidação rosa antiga, redonda e simples, e pérolas naturais, do período 1870-80. Anel com diamante com 5,89 quilates em lapidação redonda e dois diamantes menores em lapidação baguete, 1930

Pulseiras com diamantes em lapidação rosa antiga, redonda e simples, e pérolas naturais, do período 1870-80. Anel com diamante com 5,89 quilates em lapidação redonda e dois diamantes menores em lapidação baguete, 1930

Além dessa relação não ter envolvido presentes amorosos e valiosos, os personagens de nossa história são bem outros. O Príncipe Birabongse Bhanudej, mais conhecido como Bira, era neto do Rei Mongkut, mas no meio de centenas de outros, já que seu avô teve 32 mulheres e 82 filhos. Seu pai era o quarto filho da rainha (mãe do primogênito que viria a se tornar rei). Isto deveria dar algum destaque para Bira, mas nada de especial. No final das contas, sua mãe faleceu quando ele era pequeno e seu pai quando ele tinha 14 anos. Ele ficou sob a guarda de seu tio, o rei Chulalongkorn.  Foi para a Europa estudar e se tornou um desportista, chegando a ser um piloto de corridas de algum destaque. Lá ele conheceu Cheryl Heycock, com quem se casou em 1938. E, finalmente, entraram as joias na história…

O Rei Mongkut e sua esposa a Rainha Debsirindra; o Rei Chulalongkorn; e seu irmão e pai de Bira, o Príncipe Bhanurangsi Savangwongse; Príncipe Bira e Ceril Heycock na época do casamento; Ceril acompanhando uma das corridas do marido

O Rei Mongkut e sua esposa a Rainha Debsirindra; o Rei Chulalongkorn; seu irmão e pai de Bira, o Príncipe Bhanurangsi Savangwongse; Príncipe Bira e Ceril Heycock na época do casamento; Ceril acompanhando uma das corridas do marido

O Príncipe Bira era um bon vivant que torrava todo o dinheiro que caía em suas mãos com carros de corrida e toda a estrutura para participar de eventos importantes ao redor do mundo. Ceril (não faço idéia de como foi sua mudança de nome) ganhou como presente de casamento este conjunto de opalas e o anel de noivado graças ao primo do príncipe e super amigo que estava melhor colocado na linha sucessória:  o Príncipe Chula. A mãe de Chula era de origem russa e ganhara joias fantásticas de sua sogra, a rainha do Sião. Quando ela se separou do marido, que havia se apaixonada por uma sobrinha, devolveu suas joias para a rainha, que as entregou para Chula quando ele se casou. Detalhe: Bira e Chula se casaram na mesma época e formaram um quarteto super animado na sociedade londrina. Como presente de casamento, Chula decidiu dar o conjunto de opalas para Ceril que fazia aniversário em outubro, mês cuja gema é a opala. Já o anel de noivado foi mandado fazer por Bira com um diamante que recebeu de Chula.

A história não acaba aí. Ceril e Bira se divorciaram em 1949. Ele se casou outras quatro vezes – inclusive com uma argentina que ele conheceu disputando uma corrida no país com Juan Manuel Fangio – e ela teve um companheiro por muitos anos. Em 1983, os dois se reencontraram e ficaram juntos até o fim da vida do príncipe do Sião em 1985. Ceril faleceu em 2010, sem nunca se desfazer de seu presente de casamento. Seus herdeiros levam a leilão o conjunto de opalas e as pulseiras de diamantes amanhã na Sotheby’s de Londres.

Pois é, a história de Bira e Ceril não tem nada a ver com a história do Rei Mongkut do Sião e da professora Anna Leonowens, nem na versão de 1999 com Jodie Foster e Chow Yun-Fat, nem na versão de 1956 com Deborah Kerr e Yul Brynner, e muito menos no livro A governanta inglesa na corte do Sião, de Anna Leonowens, escrito em 1870

Pois é, a história de Bira e Ceril não tem nada a ver com a história do Rei Mongkut do Sião e da professora Anna Leonowens, nem na versão de 1999 com Jodie Foster e Chow Yun-Fat, nem na versão de 1956 com Deborah Kerr e Yul Brynner, e muito menos no livro A governanta inglesa na corte do Sião, de Anna Leonowens, escrito em 1870

Para não dizer que o artigo do jornal era completamente loki, Ceril Heycock escreveu um livro chamado O Príncipe e eu – minha vida com o Príncipe Bira do Sião pela Princesa Ceril Birabongse, publicado em 1992.

 

Tags: , , , , ,